
Recuperando a história do cooperativismo, chegamos na primeira cooperativa de crédito do mundo
A primeira cooperativa de crédito do mundo surgiu na Eslováquia em 1845 – um pioneirismo global pouco conhecido. Em fevereiro daquele ano, nascia em Sobotište (na época parte do Império Austríaco) o Gazdovský spolok, uma sociedade formada por camponeses locais com o objetivo inovador de captar poupança entre os associados e oferecer empréstimos solidários a juros baixos.
Por que essa iniciativa é relevante? Porque ela se encaixa exatamente nas características de uma cooperativa de crédito antes de qualquer outra iniciativa semelhante no mundo – antecipando em alguns anos os modelos cooperativos de crédito desenvolvidos posteriormente na Alemanha por Hermann Schulze-Delitzsch e Friedrich Raiffeisen.
Embora esse experimento de finanças cooperativas comunitárias tenha sido bem-sucedido localmente, ele permaneceu quase anônimo no cenário internacional durante muito tempo. Somente nas últimas décadas é que historiadores e entidades cooperativistas têm resgatado a memória do Gazdovský spolok, reafirmando-o como o primeiro “protótipo” de cooperativa de crédito do mundo.
Eslováquia e Europa Central em meados do século 19
A fundação do Gazdovský spolok de Sobotište deve ser entendida dentro do conturbado contexto socioeconômico europeu do século 19 e, em particular, da realidade vivida pelos camponeses e artesãos eslovacos sob o Império Austro-Húngaro. Trata-se de uma época marcada por concentração de terras e capital, pobreza e endividamento rural, e emergentes movimentos nacionalistas e de reformas sociais.
Na região que hoje corresponde à Eslováquia, a maioria da população vivia da agricultura de subsistência ou de pequenos ofícios, enfrentando frequentes crises de colheita, altos impostos e a falta crônica de acesso a crédito formal.
Em meados dos anos 1840, as poucas instituições financeiras existentes eram inacessíveis aos trabalhadores rurais, o que os tornava reféns de agiotas que cobravam juros exorbitantes, às vezes acima de 50% ao ano, perpetuando um ciclo de miséria e dependência.
Paralelamente, a atmosfera intelectual e política era de mudança. Ventos de inovação social sopravam pela Europa: na Inglaterra, operários fundaram cooperativas de consumo (como os pioneiros de Rochdale, em 1844); na França, floresciam as ideias dos socialistas utópicos; na Hungria e na Eslováquia, intelectuais do movimento nacional eslovaco – grupo liderado por figuras como Ľudovít Štúr – pregavam a necessidade de autoajuda comunitária, moralização do povo e emancipação econômica dos camponeses.
Em artigos da imprensa local, Štúr defendia a criação de “instituições benéficas autogeridas” para resgatar os pobres da miséria através da cooperação. É nesse ambiente de busca por soluções solidárias que surge a iniciativa de Sobotište, como uma resposta prática e local aos anseios de melhoria social e econômica.
Samuel Jurkovič e a gênese do Gazdovský spolok
Samuel Jurkovič (1796–1873) foi o idealizador e principal articulador da cooperativa de crédito de Sobotište. Professor primário, pedagogo e patriota eslovaco, Jurkovič era uma figura engajada na educação e na cultura local, e tinha ligações estreitas com líderes religiosos e intelectuais progressistas da região. Profundamente influenciado pelo ideário do despertar nacional eslovaco e pelos princípios cristãos de solidariedade, Jurkovič acreditava que a organização voluntária dos camponeses era a chave para combater a pobreza e a dependência.
Em 9 de fevereiro de 1845, Jurkovič e mais 11 cidadãos de Sobotište se reuniram na casa de um alfaiate local, Michal Horňák, para fundar formalmente uma associação que viria a ser conhecida como Gazdovský spolok (literalmente “associação de agricultores”, embora seu campo de atuação fosse crédito e poupança). Nessa reunião de fundação, redigiu-se um estatuto inovador que definia claramente objetivos e regras de funcionamento – elegeu-se ainda o próprio Samuel Jurkovič como presidente da cooperativa, Horňák como tesoureiro e outros membros como conselheiros e contadores responsáveis.
Um aspecto essencial: Jurkovič não modelou sua cooperativa a partir de algum exemplo estrangeiro preexistente. Documentos e testemunhos da época – inclusive um artigo que o próprio Jurkovič publicou no jornal Orol Tatránsky em 1846 – destacam que a iniciativa brotou da necessidade local e do gênio próprio da comunidade.
Com orgulho, Jurkovič escreveu que “(a cooperativa) não surgiu de nenhum grande artifício ou inspiração externa… mas nasceu do próprio povo eslovaco, como uma semente de tília”. Ou seja, ele atribuía integralmente ao interior da Eslováquia o mérito e a ideia de criar essa forma de poupança e crédito coletivo, sem indicar qualquer influência direta de modelos britânicos, franceses ou alemães – possivelmente porque tais movimentos ainda eram incipientes ou desconhecidos na região naquela data.
Na verdade, estudos historiográficos posteriores corroboram essa originalidade do modelo de Jurkovič. O historiador eslovaco Fraňo Ruttkay, por exemplo, salientou na década de 1960 que não há evidências de que notícias sobre a cooperativa de Rochdale, fundada uns meses antes na Inglaterra, tivessem chegado a Sobotište em 1845.
A conclusão desses pesquisadores é que Jurkovič concebeu a cooperativa de maneira autônoma, em paralelo a outras evoluções cooperativas no mundo. As ideias de cooperativismo flutuavam no ar da época, e as soluções similares tinham causas comuns (a crise social do capitalismo industrial e agrário), mas não necessariamente uma relação de cópia ou difusão direta.
Em Sobotište, o que se pode identificar são influências implícitas: a tradição local de ajuda mútua (reflexo da convivência com comunidades huteritas – os “habáni” – conhecidas pelo sistema comunitário) e os valores pregados por pastores e educadores da região. Contudo, no nível formal e declaratório, o Gazdovský spolok foi apresentado como um fruto genuinamente local – e, de toda forma, era um tipo inteiramente novo de entidade econômica, sem precedentes diretos conhecidos até aquele momento.
Funcionamento e princípios do Gazdovský spolok
O Gazdovský spolok de Sobotište tinha um objetivo central: coletar poupança dos membros da comunidade e reutilizá-la para conceder empréstimos acessíveis a esses mesmos membros, rompendo o ciclo de dívidas extorsivas com agiotas. Para atingir essa finalidade, a cooperativa foi estruturada com regras e princípios operacionais que a caracterizam inequivocamente como uma cooperativa de crédito – na verdade, antevendo várias diretrizes hoje consideradas clássicas do cooperativismo financeiro.
Elementos principais de seu funcionamento
Adesão voluntária e limitada, com base na confiança mútua: a cooperativa começou com 12 membros fundadores, ampliando-se posteriormente para até 60 sócios. Embora qualquer morador “de boa reputação” pudesse se candidatar, a associação inicial limitou-se a pessoas conhecidas, a fim de garantir um ambiente de total confiança e proximidade. Isso era crucial, pois não havia garantias formais além do laço comunitário.
Capital social via cotas individuais: ao entrar na cooperativa, cada associado subscrevia uma cota-parte e depositava um valor inicial modesto (30 kreuzer, equivalente a meio florim). Após isso, contribuições semanais fixas eram realizadas (3 kreuzer por semana, valor ínfimo, porém constante) para formar um fundo cooperativo. Esse regime de pequenos depósitos regulares funcionava como um sistema de poupança programada e disciplinada – bastante à frente de seu tempo.
Empréstimos aos sócios com juros baixos: com o fundo acumulado, a cooperativa emprestava dinheiro aos membros que precisassem de crédito, com juros anuais fixados em 6% – taxa drasticamente menor que o padrão usurário da região. Havia uma preocupação em apoiar projetos produtivos e emergências familiares, evitando o sobre-endividamento. Em circunstâncias especiais, indivíduos de fora podiam receber empréstimos (caso fossem bem recomendados), mas o foco era nos cooperados.
Gestão democrática e não remunerada: todos os postos diretivos (presidente, tesoureiro, conselheiros) foram exercidos sem remuneração, reforçando o caráter voluntário da iniciativa. As decisões-chave eram tomadas em assembleia geral, onde cada associado tinha direito a um voto, independentemente de quanto havia aportado. Esse princípio de igualdade e participação direta encaixa-se perfeitamente no modelo cooperativista.
Benefícios revertidos aos membros e à comunidade: não havia distribuição de lucros propriamente dita – até porque os juros cobrados tinham a função de cobrir as despesas e garantir um pequeno fundo de reserva para solvência. No entanto, os estatutos previam que eventuais excedentes seriam usados para fins educativos e comunitários (por exemplo, financiar aulas dominicais de alfabetização e palestras de aprimoramento moral para os membros). Ademais, cada sócio tinha assegurado o direito de, após seis anos de participação, levantar sua cota e poupança acumulada juntamente com os juros proporcionais.
Disciplina moral e social: os fundadores incorporaram ao estatuto regras inusuais, mas reveladoras da filosofia subjacente: os membros assumiam compromissos de manter conduta moral ilibada, evitar jogos de azar, embriaguez e comportamentos viciosos, e ajudar uns aos outros. O Gazdovský spolok entendia a moralização e a capacitação do associado como parte integrante de sua missão, o que ecoa um ideal cooperativista amplo de elevação educacional e cívica.
Nos anos de funcionamento (1845–1851), há registros de que a cooperativa progrediu de forma sólida. Em 1848, ela já contava com 60 membros (o dobro do inicial) e um capital acumulado de mais de 600 florins – quantia considerável para uma aldeia rural. Esse êxito inicial confirmou a viabilidade do modelo e chamou atenção de lideranças regionais.
Difusão do modelo e cooperativas criadas após Sobotište
O exemplo de Sobotište rapidamente inspirou outras comunidades eslovacas a fundarem suas próprias sociedades de poupança e crédito dentro dos anos seguintes. Ainda em março de 1845, apenas semanas após a criação do Gazdovský spolok, a aldeia vizinha de Vrbovce estabeleceu sua cooperativa nos mesmos moldes – informada e apoiada por Jurkovič.
Em 1846, foi a vez de Myjava, outro município da região, criar sua associação de crédito mútuo. Tisovec, localidade de outra área da Eslováquia, também montou um hospodársky spolok (literalmente “associação econômica”) em 1846, sob liderança de Štefan Marko Daxner. E assim, diversas outras vilas e cidades eslovacas – como Brezová, Turiec, Ratková, Revúca, Mošovce, Brezno, entre outras – viram nascer caixas de poupança e crédito entre 1846 e 1848, todas seguindo fundamentalmente o mesmo princípio de mutualismo financeiro inaugurado em Sobotište.
Essa “primeira onda” de cooperativas de crédito eslovacas foi fortemente impulsionada por uma rede informal de intelectuais e lideranças comunitárias. Jurkovič e seus colegas atuaram como difusores diretos da ideia, compartilhando estatutos-tipo, orientando reuniões e inspirando pessoas de influência local (padres, professores, pequenos comerciantes) a replicarem o modelo. Em 1847, chega-se a contabilizar aproximadamente uma dezena de cooperativas do gênero espalhadas pela Eslováquia – um número modesto em termos absolutos, mas extraordinário considerando se tratar de algo totalmente novo e fora das grandes cidades.
Obstáculos iniciais: ale salientar que muitas dessas cooperativas emergentes enfrentaram desafios para sua continuidade. A eclosão das Revoluções de 1848 no Império Austro-Húngaro resultou em inquietação social e vigilância aumentada sobre associações civis.
Em Sobotište, prudentemente, Jurkovič decidiu dissolver oficialmente o Gazdovský spolok em janeiro de 1851, buscando evitar que as autoridades imperiais interviessem e prejudicassem a comunidade. Ele fez questão de liquidar a cooperativa de forma exemplar, devolvendo a cada membro todas as poupanças e juros acumulados. Em várias outras localidades, as cooperativas fundadas nos anos 1840 tiveram destino semelhante: ou fecharam por pressões externas, ou feneceram por falta de apoio institucional. Ainda assim, o legado educacional e a semente cooperativa não se apagaram.
Consolidação institucional e auge no início do século 20
Após um período de refluxo durante os anos 1850 (quando o regime neo-absolutista de Viena reprimiu amplamente as organizações civis), o cooperativismo de crédito na Eslováquia renasceu com força a partir da década de 1860 e, especialmente, após 1870. Alguns fatores contribuíram para essa revitalização:
Legislação favorável: Em 1875, o Império Austro-Húngaro promulgou uma lei moderna de sociedades cooperativas, dando base legal estável para a formação dessas entidades em seus territórios. Isso incluiu as cooperativas de crédito, agora reconhecidas formalmente como “cooperativas de poupança e empréstimo”.
Difusão por publicações e lideranças: o já citado Daniel Lichard, um importante jornalista e economista eslovaco do século 19, publicou folhetins e almanaques (como o Domová pokladnica – “Tesouro Doméstico”) orientando os agricultores a criar caixas mútuas. A partir dessas iniciativas, mais de 40 cooperativas de crédito foram constituídas na Eslováquia entre 1868 e 1875.
Apoio mútuo e estruturante: diferente do isolacionismo forçado das pioneiras de 1845–48, agora as cooperativas buscavam organizar-se em redes. Foram fundadas uniões e, mais adiante, cooperativas centrais prestaram serviços financeiros, de auditoria e de defesa dos interesses comuns. Isso deu resiliência e escala ao movimento.
Na virada para o século 20, as cooperativas de crédito eslovacas já formavam um sistema robusto e reconhecido. Estima-se que por volta de 1918 (ano da independência da Tchecoslováquia), centenas de cooperativas de crédito locais atuavam no território eslovaco. Durante as décadas de 1920 e 1930, o setor cooperativo viveu seu auge, com apoio tanto do governo tchecoslovaco quanto da Igreja, e com forte adesão popular.
Exemplos marcantes da consolidação
As cooperativas se unificaram sob centrais (uniões): em 1919, foi criada em Bratislava a União Central de Cooperativas que obrigou (ou “congregou voluntariamente”) todas as cooperativas a se filiarem para efeito de supervisão e padronização de práticas.
Auditorias e relatórios periódicos tornaram-se obrigatórios, ajudando a profissionalizar a gestão.
Em 1936, as cooperativas de crédito eslovacas contavam com aproximadamente 100 mil depositantes e somavam milhões em ativos e empréstimos concedidos, representando um pilar fundamental do financiamento agrícola e local do país.
A evolução também incluiu a transformação de algumas cooperativas em bancos cooperativos ou comerciais. Cita-se, por exemplo, a cooperativa de Tisovec: iniciada em 1846, ela sobreviveu e prosperou, convertendo-se juridicamente em banco de investimento local no fim do século 19 para ampliar sua atuação. Outros bancos regionais (como o Tatra banka, fundado em 1885 em Martin) também tiveram gênese ligada à movimentação cooperativa, se tornando grandes instituições financeiras eslovacas no período entre-guerras.
Ruptura histórica e estatização (pós-1948)
O ano de 1948 marcou um divisor de águas para o cooperativismo de crédito na Eslováquia. Em fevereiro daquele ano, o Partido Comunista tomou o poder na Tchecoslováquia e, nos meses subsequentes, implementou uma radical estatização e centralização econômica. O setor cooperativo, que até então gozava de relativa autonomia e protagonismo, não foi poupado:
Junho de 1948: por meio da lei 181/1948, todas as cooperativas de crédito foram compulsoriamente fundidas em uma única estrutura estatal, denominada Central Financeira Popular (Ľudové peňažné ústredie). Essa entidade assumiu todos os ativos, passivos e operações das cooperativas, convertendo-as, na prática, em agências de um banco estatal único.
As uniões e centrais existentes foram dissolvidas ou incorporadas a essa estrutura monopolista. Assim, a cooperativa “de base”, local, administrada pelos próprios membros, deixou de existir – sua função foi absorvida por um sistema vertical controlado pelo Estado.
Os princípios cooperativistas democráticos foram suplantados pela lógica estatal planificada: as decisões passavam a vir de cima, os lucros revertiam ao Estado e não mais diretamente aos membros, e a noção de adesão voluntária perdeu sentido, já que não havia opção alternativa.
Esse processo, comum ao bloco socialista, eliminou em questão de meses um movimento que levara um século para ser construído. A estatização rompeu a linha de continuidade institucional de todas as cooperativas de crédito eslovacas. Mesmo após 1948, o termo “cooperativa de crédito” já não designava uma entidade autônoma, mas sim uma mera subdivisão de um sistema estatal.
Situação atual do cooperativismo de crédito na Eslováquia
Após a queda do regime comunista (1989) e a independência da Eslováquia (1993), muitos países ex-socialistas revitalizaram o cooperativismo de crédito como forma de melhorar a inclusão financeira. Contudo, na Eslováquia, isso não ocorreu de forma efetiva.
Nos primeiros anos de reestruturação econômica (início dos anos 1990), houve tentativas embrionárias de recriar cooperativas de crédito no país, mas problemas de má gestão e fraudes em algumas dessas pioneiras geraram uma reação regulatória contrária. O governo eslovaco, preocupado com a estabilidade financeira, optou por não institucionalizar o regime de cooperativas de crédito.
Hoje, não há base legal específica para cooperativas de crédito na Eslováquia: a legislação financeira só reconhece bancos tradicionais e pequenas instituições de crédito não bancário, mas não permite cooperativas financeiras com tomada de depósitos de membros.
Assim, o cooperativismo de crédito praticamente não existe na Eslováquia contemporânea. De acordo com relatórios internacionais, o número de cooperativas de crédito ativas é zero – ou, na prática, não há nenhuma operando sob esse conceito no país. Um levantamento do Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito (Woccu) chegou a listar “uma cooperativa de crédito” eslovaca no início dos anos 2010, possivelmente referindo-se a alguma entidade residual de poupança, mas o fato é que não há um sistema cooperativo financeiro organizado ou relevante hoje.
Por outro lado, o movimento cooperativista em si não foi extinto: há setores cooperativos importantes na Eslováquia atual, notadamente em agronegócio, crédito agrícola (via cooperativas de produtores), habitação e consumo. Estima-se que cerca de meio milhão de eslovacos (cerca de 9% da população) estejam envolvidos em cooperativas desses outros ramos. Mas o setor financeiro em si foi reocupado quase inteiramente por bancos convencionais, muitos de capital estrangeiro, e por alternativas privadas de microfinanças. Há discussões pontuais sobre a conveniência de se permitir a reabertura de cooperativas de crédito, mas até o momento predomina o conservadorismo regulatório – um contraste marcante para a nação que outrora foi vanguarda mundial no cooperativismo de crédito.
Legado do modelo de 1845: continuidade e rupturas
Que lições e influências o Gazdovský spolok de 1845 deixou para o cooperativismo de crédito? Há dois aspectos distintos a considerar: primeiro, o legado histórico-conceitual; segundo, o legado institucional-concreto.
Legado histórico e conceitual: sem dúvida, os princípios do modelo de Sobotište – a saber, a autoajuda financeira comunitária, a governança democrática, a responsabilidade moral e a priorização do bem-estar dos membros – estão plenamente alinhados com o que hoje entendemos por cooperativismo de crédito. Esses princípios permeiam o movimento cooperativista mundial e foram redescobertos ou desenvolvidos também por outros pioneiros (Raiffeisen e Delitzsch na Alemanha, Desjardins no Canadá, etc.).
O Gazdovský spolok serve como um símbolo e referência de que a ideia cooperativista de crédito tem raízes universais e emergiu quase simultaneamente em sociedades distintas que buscavam soluções solidárias para as mesmas mazelas. O caso de Sobotište, outrora esquecido nos livros internacionais, tem sido resgatado e reconhecido oficialmente na Eslováquia – o país celebra Jurkovič como herói nacional, mantém um museu cooperativo na vila de Sobotište e vem pleiteando maior divulgação de seu feito no cenário global.
Legado institucional e prático: aqui, a continuidade foi rompida. Não existe uma linha direta que conecte o Gazdovský spolok de 1845 às cooperativas de crédito de hoje, porque não há propriamente cooperativas de crédito em operação na Eslováquia hoje.
O movimento original teve continuidade até um determinado momento (já que colaborou para criar centenas de cooperativas pelo país até os anos 1940), mas foi interrompido pelas contingências políticas. Por isso, a situação atual do país não reflete o potencial daquele modelo pioneiro.
Em certo sentido, a herança de Sobotište sobrevive mais como inspiração e parte da história do que como realidade econômica. No entanto, não deixa de ser marcante o fato de que o cooperativismo de crédito global teve início num arranjo humilde de uma dezena de agricultores eslovacos – e hoje, embora localmente extinto, é um movimento mundial presente em mais de 100 países e atendendo centenas de milhões de pessoas. O embrião plantado por Jurkovič faz parte das raízes dessa árvore global.
Sobotište, na Eslováquia, é a primeira cooperativa de crédito do mundo
A saga do Gazdovský spolok de Sobotište é um capítulo singular na história do cooperativismo financeiro. Em meio ao fervor das transformações sociais do século 19, um grupo de camponeses eslovacos concebeu, de forma pioneira, a ideia de união de recursos e esforços para prover crédito justo para si próprios – inventando aquilo que viria a ser conhecido como cooperativa de crédito.
A iniciativa atendeu plenamente seu propósito imediato: aliviou seus membros da dependência de agiotas e melhorou seu bem-estar, ao mesmo tempo em que serviu de exemplo para a formação de novas cooperativas nas regiões vizinhas. Nos cem anos seguintes, a emoção inicial de Sobotište se amplificou, até que circunstâncias políticas a silenciaram.
Hoje, lembrar desse legado é resgatar uma importante referência histórica e filosófica: a de que o cooperativismo de crédito nasce da necessidade real das comunidades e do poder da solidariedade.
Ainda que a Eslováquia moderna não tenha herdado diretamente essa estrutura, os valores semeados em 1845 permanecem universais e atemporais, inspirando cooperativas e credit unions ao redor do globo. O artigo e as pesquisas por trás dele destacam que o cooperativismo de crédito não foi uma invenção específica de um só país, mas um fenômeno humano emergente em diversos lugares – e Sobotište foi um celeiro primordial dessas ideias.
Selo comemorativo
O reconhecimento histórico dessa experiência foi reforçado em 1995, quando a Eslováquia emitiu um selo postal em homenagem a Samuel Jurkovič e aos 150 anos da cooperativa fundada em Sobotište, evidenciando sua relevância como uma das primeiras iniciativas de crédito cooperativo da Europa.
No site postoveznamky.sk consta: “O ano de 1995 é significativo para todo o movimento cooperativo eslovaco e mundial. Recordamos o 150º aniversário da criação da primeira cooperativa no território da atual República Eslovaca — a Associação dos Agricultores (Gazdovský spolok), fundada em 9 de fevereiro de 1845 em Sobotište. Foi também a primeira cooperativa no continente europeu e a segunda na Europa, após a cooperativa fundada na cidade inglesa de Rochdale.
O fundador e idealizador da Associação dos Agricultores foi Samuel Jurkovič. Tratava-se da primeira cooperativa de crédito, que ao mesmo tempo desempenhava funções de uma caixa de poupança. Para seus membros — e, excepcionalmente, também para necessitados não membros — providenciava crédito acessível a partir de recursos formados por meio da poupança regular e do depósito de economias na caixa cooperativa.”
OBS.: Pela descoberta deste pioneirismo devemos um reconhecimento especial a Rodrigo Trespach, cujo artigo publicado no MundoCoop despertou a atenção para esta história e estimulou o Portal do Cooperativismo Financeiro a revisitar e aprofundar esse capítulo fundamental da história cooperativista.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro (cooperativismodecredito.coop.br)