Finlândia é considerada um dos países mais cooperativos do mundo

22/10/2026 15:54

Segundo a Pellervo Coop Center, cerca de 80% dos finlandeses pertencem a pelo menos uma cooperativa

A Finlândia costuma aparecer entre as principais referências internacionais de cooperativismo, mutualismo e organização econômica de base associativa. A afirmação não se sustenta apenas em tradição histórica ou em discurso institucional. Ela aparece nos números, na presença das cooperativas em setores estratégicos e, sobretudo, na forma como milhões de finlandeses se relacionam diariamente com organizações pertencentes a consumidores, produtores, clientes ou proprietários locais.

Em um país com 5.652.881 habitantes ao fim de 2025, existem mais de 3 mil cooperativas e organizações mutualistas, com aproximadamente 7 milhões de vínculos de associação ou propriedade. Segundo a Pellervo Coop Center, cerca de 80% dos finlandeses pertencem a pelo menos uma cooperativa. Naturalmente, esse número de vínculos não representa pessoas únicas, pois uma mesma pessoa pode ser membro de uma cooperativa de consumo, cliente-proprietária de uma instituição financeira cooperativa e também cliente de uma seguradora mutualista. Ainda assim, o dado revela a densidade do modelo cooperativo no país.

Por isso, a Finlândia oferece uma experiência singular. O cooperativismo não aparece apenas no meio rural, nem se restringe ao crédito ou à produção agropecuária. Ele está no supermercado, no banco, no seguro, no posto de combustível, no hotel, no restaurante, na cadeia do leite, na indústria florestal e em serviços financeiros digitais. Em outras palavras, a cooperação empresarial tornou-se uma das formas centrais de organizar mercados relevantes da economia finlandesa.

Síntese do modelo finlandês: na Finlândia, cooperativas e mutualistas não são organizações marginais. Elas disputam liderança em setores essenciais, combinam escala nacional com propriedade dos usuários e demonstram que empresas cooperativas podem ser modernas, urbanas, digitais e altamente competitivas.

Em quais setores o cooperativismo é mais forte na Finlândia?
Antes de detalhar cada sistema, vale observar onde o cooperativismo e o mutualismo têm maior força na economia finlandesa. A presença cooperativa é ampla, mas alguns setores se destacam pela escala, participação de mercado e relevância cotidiana.

Serviços financeiros e cooperativismo de crédito
O principal destaque é o OP Pohjola, maior grupo financeiro da Finlândia. O grupo reúne cooperativas bancárias, uma cooperativa central e empresas de banco, seguros, investimentos e gestão patrimonial. Em 2025, seus proprietários-clientes acumularam 327 milhões de euros em OP bonuses, benefício que pode ser usado em serviços bancários, seguros ou investimentos, conforme as regras do grupo.

O dado comparável mais recente de participação de mercado, publicado pela Finance Finland, tem data-base de 31 de dezembro de 2024. Naquele momento, o OP respondia por 34,2% dos empréstimos e 40,8% dos depósitos das instituições de crédito na Finlândia. Além disso, o POP Bank Group mantinha presença cooperativa local, enquanto o S-Bank, embora não seja uma cooperativa de crédito, atuava como banco de propriedade cooperativa indireta, por pertencer ao ecossistema do S Group.

Considerando OP, S-Bank e POP Bank, instituições cooperativas ou de propriedade cooperativa respondiam por cerca de 39,3% do crédito e 48% dos depósitos das instituições de crédito finlandesas em 2024. Portanto, o cooperativismo de crédito e os bancos de propriedade cooperativa ocupam uma posição central no sistema financeiro finlandês. Ao contrário do que ocorre em muitos países, eles não se limitam ao interior ou a pequenos municípios. Eles também têm forte presença em Helsinque e na região metropolitana.

Varejo alimentar, consumo e serviços urbanos
O S Group é um dos exemplos mais evidentes da força cooperativa no cotidiano. O grupo é formado por 19 cooperativas regionais e atua em supermercados, lojas, combustíveis, restaurantes, hotéis, comércio eletrônico e serviços financeiros. Em 2025, suas vendas combinadas alcançaram 15,4 bilhões de euros, o resultado operacional foi de 495 milhões de euros e o sistema pagou um recorde de 558 milhões de euros em bônus e outros benefícios monetários aos membros.

No varejo alimentar, o S Group alcançou 49,0% de participação em 2025. Isso significa que praticamente metade das compras de alimentos do país passa por um sistema cooperativo de consumo. Essa presença não se restringe a pequenas cidades. Pelo contrário, em Helsinque e na região metropolitana, a cooperativa regional HOK-Elanto reúne mais de 724 mil membros-proprietários e opera centenas de pontos de serviço.

Seguros e mutualismo
O mutualismo também ocupa posição relevante. A LocalTapiola é um grupo de seguros mutualistas com 1,840 milhão de clientes em 2025, 19 companhias mútuas regionais e cerca de 200 escritórios. No mesmo ano, o grupo pagou 185 milhões de euros em bônus a clientes, registrou resultado operacional de 446 milhões de euros e resultado total de 577 milhões de euros.

Além da LocalTapiola, a Pohjola Insurance, vinculada ao OP Pohjola, também possui forte participação no mercado de seguros não vida. Dessa forma, a proteção patrimonial, os seguros e os serviços de prevenção de riscos formam outro campo no qual a lógica de propriedade dos clientes mantém grande relevância.

Agroindústria e cadeia do leite
No setor agroindustrial, a Valio demonstra a força das cooperativas de produtores. A empresa pertence a cerca de 3 mil fazendas leiteiras por meio de cooperativas e se consolidou como uma das principais companhias de alimentos da Finlândia. Em 2025, ano em que completou 120 anos, a Valio registrou receita líquida de 2,4227 bilhões de euros, superando o recorde de 2024.

Indústria florestal e propriedade local
A Finlândia também é uma potência florestal. Nesse setor, o Metsä Group mostra como uma cooperativa pode controlar uma indústria global. O grupo pertence à Metsäliitto Cooperative, cooperativa formada por aproximadamente 90 mil proprietários florestais finlandeses. Em 2025, o Metsä Group registrou vendas de 5,8 bilhões de euros e cerca de 8.800 empregados.

Assim, a força cooperativa finlandesa não está concentrada em um único ramo. Ela aparece em finanças, consumo, seguros, leite, florestas, comércio, serviços e atividades urbanas. Essa diversidade ajuda a explicar por que a Finlândia se tornou referência mundial em cooperativismo e mutualismo.

A origem histórica: cooperativismo como instrumento de desenvolvimento nacional
O cooperativismo moderno finlandês surgiu no fim do século XIX, em um contexto de transição econômica, afirmação nacional e busca por autonomia. Na época, a Finlândia ainda era um Grão-Ducado autônomo dentro do Império Russo. A economia tinha forte base agrícola, a população era dispersa e muitos pequenos produtores enfrentavam dificuldades para acessar crédito, comprar insumos, processar produtos e comercializar sua produção.

Nesse ambiente, o cooperativismo apareceu como solução prática. Ele permitia que produtores, consumidores e comunidades locais organizassem empresas próprias, ganhassem escala e aumentassem sua capacidade de negociação. Ao mesmo tempo, o movimento cooperativo ajudava a fortalecer a identidade nacional finlandesa, em um país que buscava consolidar instituições, língua, cultura e autonomia econômica.

Essa origem é importante porque mostra que o cooperativismo finlandês não nasceu apenas como uma técnica empresarial. Ele se formou também como movimento de educação econômica, organização social e construção nacional. Por isso, sua trajetória combina pragmatismo, confiança, disciplina institucional e participação comunitária.

Pellervo Society: a organização que semeou o cooperativismo finlandês
A criação da Pellervo Society, em 1899, é o marco fundamental do cooperativismo moderno na Finlândia. A organização nasceu para difundir as ideias cooperativas, orientar a criação de cooperativas, formar lideranças, produzir conhecimento e defender um ambiente legal favorável ao modelo cooperativo. A primeira lei cooperativa finlandesa entrou em vigor em 1901, apenas dois anos depois da fundação da Pellervo.

O nome Pellervo remete ao épico nacional finlandês, o Kalevala, no qual Sampsa Pellervoinen aparece associado à semeadura e à fertilidade dos campos. A simbologia é muito adequada: a entidade foi criada justamente para “semear” a cooperação em um país que precisava organizar sua base econômica e social.

Dois nomes estão diretamente ligados à origem da Pellervo: Hannes Gebhard e Hedvig Gebhard. Hannes Gebhard, economista, professor e parlamentar, estudou experiências cooperativas europeias, incluindo modelos alemães, dinamarqueses e suecos. Ele é frequentemente reconhecido como o pai do cooperativismo finlandês. Hedvig Gebhard, jornalista, educadora, parlamentar e ativista do movimento de mulheres, teve papel decisivo na comunicação das ideias cooperativas, na educação popular e na aproximação do cooperativismo com o cotidiano das famílias. Por isso, ela é reconhecida como a mãe do cooperativismo finlandês.

A Pellervo Coop Center continua existindo e atua como organização nacional de promoção, representação, defesa institucional, pesquisa, formação e articulação do cooperativismo e do mutualismo na Finlândia. Guardadas as diferenças de história, estrutura e legislação, a Pellervo exerce um papel comparável ao da OCB – Organização das Cooperativas do Brasil, pois representa institucionalmente o cooperativismo, promove o modelo cooperativo, acompanha temas regulatórios e contribui para dar visibilidade pública às cooperativas.

Por que a Pellervo é tão relevante? Porque ela transformou o cooperativismo em projeto nacional. Mais do que estimular empresas isoladas, a organização ajudou a criar um ambiente de educação, legislação, representação e confiança para que cooperativas crescessem em vários setores da economia finlandesa.

A inspiração em Raiffeisen e a adaptação ao contexto finlandês
O cooperativismo financeiro finlandês recebeu influência das experiências europeias de crédito cooperativo, especialmente da tradição associada a Friedrich Wilhelm Raiffeisen, pioneiro alemão das cooperativas de crédito rural. O modelo Raiffeisen nasceu para enfrentar a exclusão financeira de agricultores, pequenos produtores e comunidades locais, por meio de instituições baseadas em ajuda mútua, responsabilidade coletiva e proximidade.

Na Finlândia, essa inspiração encontrou terreno fértil. O país tinha forte presença rural, comunidades dispersas, produtores com baixa capacidade individual de negociação e necessidade de crédito adequado à realidade local. Contudo, os finlandeses não copiaram simplesmente o modelo alemão. Eles o adaptaram à sua cultura institucional, à organização territorial do país e à construção de estruturas centrais capazes de dar escala, padronização, segurança e competitividade ao movimento.

Essa combinação explica parte do sucesso atual. O cooperativismo financeiro finlandês preservou a ideia de propriedade dos clientes e de vínculo local, mas avançou para uma estrutura altamente integrada, profissionalizada e tecnologicamente sofisticada.

OP Pohjola: o maior grupo financeiro da Finlândia é cooperativo
O OP Pohjola, anteriormente conhecido como OP Financial Group, é o principal grupo financeiro cooperativo da Finlândia e o maior provedor de serviços financeiros do país. O sistema reúne 93 cooperativas bancárias independentes, uma cooperativa central e empresas controladas que atuam em banco, seguros, investimentos, gestão de patrimônio, serviços corporativos e soluções digitais.

O grupo possui mais de 2,1 milhões de proprietários-clientes. Esse conceito é essencial: o cliente não é apenas usuário dos serviços, mas também proprietário da cooperativa bancária à qual está vinculado. Por meio dessa estrutura, os membros são donos dos bancos cooperativos locais e, indiretamente, de todo o grupo OP Pohjola.

A relevância de mercado do OP é expressiva. Em 31 de dezembro de 2024, o grupo detinha 34,2% dos empréstimos e 40,8% dos depósitos das instituições de crédito na Finlândia, último dado setorial consolidado e comparável publicado pela Finance Finland. Além disso, atua com seguros, investimentos e gestão patrimonial. Portanto, o cooperativismo financeiro finlandês não ocupa um espaço marginal: ele lidera o mercado nacional.

O OP também mostra que o retorno cooperativo pode assumir diferentes formas. Em 2025, os proprietários-clientes acumularam 327 milhões de euros em OP bonuses, que podem ser utilizados em serviços bancários, prêmios de seguros ou investimentos em fundos, conforme as regras do grupo. Dessa forma, o benefício ao associado aparece em bônus, preços, serviços, relacionamento, segurança e fortalecimento da estrutura comum.

OP em Helsinque e nas grandes cidades
Em muitos países, o cooperativismo financeiro mantém forte presença no interior, mas perde espaço nas capitais e grandes centros urbanos. Na Finlândia, o cenário é diferente. O OP Pohjola tem forte presença também em Helsinque e na região metropolitana.

A OP Uusimaa, cooperativa regional ligada ao OP Pohjola, atua em Helsinque, Espoo, Vantaa e outros municípios da região de Uusimaa. Em Helsinque, a estrutura inclui unidades como Arkadia, Itis, Mikonkatu, OP Private Helsinki e serviços bancários corporativos.

Portanto, o cooperativismo financeiro finlandês atende pessoas físicas urbanas, empresas, investidores, famílias, profissionais liberais, pequenos negócios e grandes clientes corporativos.

Esse ponto diferencia a Finlândia de muitos mercados. O cooperativismo financeiro não ficou restrito ao crédito rural ou comunitário. Ele se tornou urbano, digital, sistêmico e competitivo.

POP Bank: bancos cooperativos locais com foco regional
O POP Bank Group é outro sistema financeiro cooperativo relevante. Ele possui escala menor que o OP Pohjola, mas mantém uma identidade local importante. O grupo é formado por bancos cooperativos, pela POP Bank Centre coop e por entidades controladas. Sua atuação se concentra em serviços bancários para pessoas físicas, pequenas e médias empresas, negócios locais e comunidades regionais.

O POP Bank Group reúne cerca de 18 bancos cooperativos membros e aproximadamente 250 mil clientes. Também mantém uma rede de cerca de 70 agências ou pontos de atendimento, principalmente nas regiões oeste, central e sudoeste da Finlândia, além de presença em outras áreas do país.

Embora sua participação de mercado seja menor, o POP Bank ajuda a manter a diversidade do cooperativismo financeiro finlandês. Em 31 de dezembro de 2024, o grupo respondia por 1,7% dos empréstimos e 2,3% dos depósitos das instituições de crédito do país.

S-Bank: o banco que pertence às cooperativas de consumo
O S-Bank merece atenção especial porque seu modelo é diferente. Ele não é uma cooperativa de crédito. Trata-se de uma instituição bancária organizada como sociedade por ações, controlada pelo S Group, o grande sistema cooperativo de consumo da Finlândia.

Na prática, a pessoa é membro de uma cooperativa regional de consumo. Essa cooperativa integra o S Group, que participa da propriedade do banco. Portanto, o consumidor não é proprietário direto do S-Bank, como ocorre em uma cooperativa de crédito tradicional. Ele é proprietário indireto, por meio da cooperativa de consumo à qual pertence.

Mesmo assim, o S-Bank representa uma forma relevante de presença cooperativa no sistema financeiro. Em 2025, o banco registrou 10,2 bilhões de euros em depósitos, 9,4 bilhões de euros em carteira de crédito, 8,9 bilhões de euros em ativos sob gestão e 858 mil clientes ativos. Além disso, integra serviços bancários ao ecossistema de consumo, benefícios, cartões e relacionamento dos membros do S Group.

Quanto à participação de mercado, o dado comparável mais recente da Finance Finland ainda tem data-base de 31 de dezembro de 2024. Naquela data, o S-Bank detinha 3,4% dos empréstimos e 4,9% dos depósitos das instituições de crédito na Finlândia.

O caso mostra que o cooperativismo financeiro pode assumir diferentes formatos. Em alguns casos, ele aparece como cooperativa de crédito direta, como no OP e no POP Bank. Em outros, surge como banco controlado por cooperativas de outro ramo, como ocorre com o S-Bank.

S Group: cooperativismo de consumo no supermercado, no hotel, no restaurante e no posto de combustível
O S Group é uma das maiores expressões do cooperativismo de consumo no mundo. O sistema reúne 19 cooperativas regionais, uma organização central, a SOK, e uma rede de negócios que inclui supermercados, lojas, combustíveis, restaurantes, hotéis, comércio eletrônico e serviços financeiros.

As marcas do grupo fazem parte do cotidiano dos finlandeses. Entre elas estão redes como Prisma, S-market, Alepa, Sale, ABC, Sokos Hotels e várias operações regionais de restaurantes e serviços. Assim, a experiência cooperativa aparece em atividades simples do dia a dia: comprar alimentos, abastecer o carro, almoçar, viajar, hospedar-se, usar cartão, acumular bônus e movimentar conta bancária.

Em 2025, o S Group registrou vendas combinadas de 15,4 bilhões de euros, resultado operacional de 495 milhões de euros e investimentos de 683 milhões de euros na Finlândia. No mesmo ano, pagou o valor recorde de 558 milhões de euros em bônus e outros benefícios monetários aos membros. Além disso, alcançou 49,0% de participação no varejo alimentar da Finlândia.

Esse número impressiona porque mostra que uma rede cooperativa pode competir em escala nacional, enfrentar grandes grupos privados e manter forte relação com seus membros-proprietários. O próprio S Group destacou que as lojas online e as vendas móveis já formam um negócio de 1 bilhão de euros, indicando que o cooperativismo de consumo finlandês também avança na digitalização.

HOK-Elanto: a cooperativa de consumo da região de Helsinque
Na região metropolitana de Helsinque, a cooperativa regional do S Group é a HOK-Elanto, a maior do sistema. No fim de 2025, ela tinha mais de 724 mil membros-proprietários, aproximadamente 7 mil empregados, faturamento na ordem de 2,7 bilhões de euros e mais de 400 pontos de serviço.

Esse exemplo mostra que as cooperativas de consumo não são fortes apenas em cidades pequenas. Pelo contrário, em Helsinque, uma das regiões mais urbanizadas e sofisticadas do país, a maior cooperativa regional do S Group tem presença intensa. O cooperativismo de consumo finlandês é urbano, capilar, profissionalizado e integrado a uma ampla rede de serviços.

Portanto, ao caminhar por Helsinque, o visitante encontra o cooperativismo em diferentes formatos: uma loja Alepa, um supermercado S-market, uma unidade Prisma, um restaurante vinculado ao grupo, um hotel Sokos, uma comunicação do S-Etukortti ou um serviço associado ao S-Bank.

LocalTapiola: o mutualismo como força no mercado de seguros
A LocalTapiola demonstra a força do mutualismo na Finlândia. O grupo possui 1,840 milhão de clientes em 2025, 19 companhias mútuas regionais e cerca de 200 escritórios em todo o país.

O mutualismo se diferencia do cooperativismo de crédito ou de consumo, mas compartilha uma lógica semelhante: os clientes não aparecem apenas como compradores de serviços. Eles participam de uma estrutura de propriedade ou pertencimento coletivo, na qual riscos, resultados e benefícios podem retornar aos próprios clientes.

Em 2025, a LocalTapiola registrou resultado operacional de 446 milhões de euros, resultado total de 577 milhões de euros, 1,604 bilhão de euros em prêmios emitidos diretos no seguro não vida e 185 milhões de euros em bônus a clientes. Além disso, seus ativos brutos sob gestão alcançaram 35,2 bilhões de euros.

Dessa forma, o mutualismo segurador finlandês opera com escala, presença regional e relevância econômica. Ele também mostra como a lógica de cliente-proprietário pode ser aplicada a um setor essencial para famílias, empresas e comunidades.

Valio: produtores de leite organizados em uma empresa global
A Valio é uma das empresas mais conhecidas da Finlândia e representa a força das cooperativas no setor de alimentos. A companhia pertence a cerca de 3 mil fazendas leiteiras por meio de cooperativas, e seus resultados são direcionados aos produtores por meio dessas estruturas.

A Valio mostra como produtores rurais podem controlar uma empresa industrial sofisticada, inovadora e exportadora. A companhia atua em laticínios, ingredientes, tecnologia de alimentos, sustentabilidade e mercados internacionais. Em 2025, ano de seu 120º aniversário, a empresa registrou receita líquida de 2,4 bilhões de euros, acima do recorde de 2024, que havia sido de 2,2 bilhões de euros.

Outro indicador relevante é o retorno do leite. Em 2025, o milk return chegou a 56 centavos de euro por litro, acima dos 52,2 centavos de euro por litro registrados em 2024. Além disso, o preço médio pago por litro de leite às cooperativas foi de 54,1 centavos de euro, ante 50,9 centavos em 2024.

Esse caso reforça uma lição importante: cooperativas não precisam escolher entre identidade cooperativa e competitividade global. Quando organizadas com governança, escala, investimento e inovação, elas conseguem agregar valor à produção dos membros e disputar mercados internacionais.

Metsä Group: proprietários florestais no controle de uma indústria global
A Finlândia possui forte vocação florestal. Nesse contexto, o Metsä Group tornou-se uma referência de cooperativismo industrial. O grupo é controlado pela Metsäliitto Cooperative, cooperativa formada por aproximadamente 90 mil proprietários florestais finlandeses.

O Metsä Group atua em madeira, celulose, papel-cartão, tissue, papéis especiais, bioprodutos e serviços florestais. Em 2025, registrou vendas de 5,8 bilhões de euros e cerca de 8.800 empregados.
O modelo conecta milhares de proprietários florestais a uma cadeia industrial global. Além disso, cria incentivos para manejo sustentável, valorização de longo prazo das florestas, inovação em produtos renováveis e manutenção da propriedade local da matéria-prima.

Presença física e digital: proximidade com tecnologia
O cooperativismo finlandês nasceu baseado na proximidade local, mas evoluiu para combinar presença física e serviços digitais. Essa combinação aparece claramente no setor financeiro, no varejo e nos seguros.

No OP Pohjola, os membros utilizam canais digitais para banco, seguros, investimentos e relacionamento, mas também contam com unidades físicas nas regiões. Na OP Uusimaa, por exemplo, o atendimento ocorre pela internet, telefone e agências espalhadas por Helsinque e municípios próximos.

No S Group, a presença física continua decisiva porque supermercados, restaurantes, hotéis e postos de combustível fazem parte da experiência cotidiana. Entretanto, o relacionamento com o membro também passa por cartão, aplicativo, banco digital, benefícios, comércio eletrônico e integração de dados. Em 2025, o próprio grupo destacou que lojas online e vendas móveis já constituíam um negócio de 1 bilhão de euros.

Portanto, a Finlândia mostra que proximidade não significa apenas agência física ou balcão de atendimento. Proximidade também pode significar conveniência digital, personalização, benefícios integrados, presença no bairro e atuação local combinada com tecnologia.

O cooperativismo finlandês está presente na vida cotidiana
A amplitude do cooperativismo na Finlândia aparece justamente na repetição cotidiana de pequenos contatos com organizações cooperativas e mutualistas. O cidadão pode comprar alimentos em uma cooperativa de consumo, abastecer em uma rede vinculada ao S Group, hospedar-se em um hotel cooperativo, contratar serviços financeiros no OP Pohjola ou no S-Bank, proteger seus bens em uma mutualista como a LocalTapiola, consumir produtos lácteos da Valio e se beneficiar de cadeias produtivas organizadas por produtores e proprietários locais.

Essa presença constante ajuda a explicar por que o cooperativismo finlandês não depende apenas de campanhas institucionais para ser reconhecido. Ele se torna visível na prática. O associado percebe valor no serviço, no preço, no benefício, na conveniência, na confiança, no retorno econômico e na sensação de pertencimento.

Assim, a força do modelo não está apenas na existência jurídica das cooperativas. Ela está na capacidade dessas organizações de resolver necessidades reais da população e disputar mercados com eficiência.

O que o Brasil pode aprender com a experiência finlandesa?
A experiência finlandesa não deve ser copiada mecanicamente. O Brasil tem outra escala populacional, outra história, outro sistema financeiro, outra estrutura regulatória e diferentes desafios regionais. Ainda assim, a Finlândia oferece aprendizados relevantes para o cooperativismo brasileiro.

1. Escala e identidade local podem caminhar juntas
Os exemplos do OP Pohjola, S Group, Valio e Metsä Group mostram que cooperativas locais ou regionais podem se apoiar em estruturas centrais fortes sem eliminar totalmente sua identidade territorial. A centralização de tecnologia, marca, governança, compras, gestão de riscos e inovação pode ampliar a competitividade, desde que preserve canais reais de representação dos membros.

2. O valor ao associado vai além das sobras
Na Finlândia, o retorno ao membro aparece em bônus, preços, serviços, qualidade, conveniência, segurança, relacionamento, capitalização e impacto regional. Esse conceito amplia a comunicação do diferencial cooperativo. Em vez de falar apenas de distribuição de sobras, as cooperativas podem demonstrar o valor total que entregam ao associado e à comunidade.

3. Intercooperação pode ser infraestrutura permanente
O modelo finlandês mostra que intercooperação não precisa ser apenas um projeto eventual. Ela pode estruturar cadeias inteiras de valor. O S Group integra varejo, serviços, banco e benefícios. O OP combina banco, seguros e investimentos. A Valio integra produtores, indústria, pesquisa e exportação. O Metsä Group conecta proprietários florestais, manejo, indústria e mercado global.

4. Cooperativismo pode ser urbano, digital e competitivo
A presença do cooperativismo em Helsinque mostra que o modelo não precisa ficar restrito ao interior. Cooperativas podem ser fortes em capitais, regiões metropolitanas, serviços digitais, mercados sofisticados e setores altamente competitivos.

5. Confiança institucional é um ativo estratégico
A cultura finlandesa de confiança, previsibilidade e responsabilidade coletiva favoreceu o desenvolvimento das cooperativas. No entanto, essa confiança não surgiu por acaso. Ela foi construída por regras claras, educação, transparência, governança e entrega concreta de valor. Esse é um ponto essencial para qualquer país que deseje fortalecer o cooperativismo.

Conclusão: cooperar não significa ser pequeno
A Finlândia desafia a ideia de que cooperativas são organizações pequenas, locais ou pouco competitivas. No país, cooperativas e mutualistas lideram mercados, operam sistemas financeiros, administram redes de varejo, controlam hotéis, restaurantes, postos de combustível, seguradoras, indústrias de alimentos e grupos florestais globais.

Além disso, o modelo finlandês mostra que a propriedade dos usuários pode conviver com eficiência, tecnologia, escala e inovação. O segredo está em organizar estruturas capazes de unir proximidade local, governança profissional, capitalização, confiança e visão de longo prazo.

Em um mundo marcado por concentração econômica, digitalização acelerada e distanciamento entre empresas e comunidades, a Finlândia oferece uma mensagem atual: empresas podem crescer sem romper seus vínculos com usuários, produtores, consumidores e territórios.

Na Finlândia, o cooperativismo não é apenas uma alternativa ao mercado. Ele é uma das formas centrais de organizar o próprio mercado.

Perguntas frequentes sobre o cooperativismo na Finlândia
Por que a Finlândia é considerada um dos países mais cooperativos do mundo?
Porque possui elevada proporção da população vinculada a cooperativas, mais de 3 mil cooperativas e mutualistas, cerca de 7 milhões de vínculos associativos e grupos cooperativos líderes em setores como crédito, varejo alimentar, seguros, leite e florestas.

Qual é a principal organização de representação do cooperativismo finlandês?
A principal organização é a Pellervo Coop Center, sucessora da Pellervo Society, fundada em 1899. Ela atua na promoção, representação, defesa institucional, formação e articulação do cooperativismo e do mutualismo na Finlândia. Guardadas as diferenças, exerce papel comparável ao da OCB no Brasil.

O maior banco da Finlândia é cooperativo?
Sim. O OP Pohjola é o maior grupo financeiro da Finlândia e possui base cooperativa. O sistema reúne 93 cooperativas bancárias, mais de 2,1 milhões de proprietários-clientes e forte participação no mercado de crédito, depósitos, seguros e investimentos.

O S-Bank é uma cooperativa de crédito?
Não. O S-Bank é um banco controlado pelo S Group, sistema de cooperativas de consumo. O cliente é proprietário indireto do banco quando integra uma cooperativa regional de consumo pertencente ao S Group.

As cooperativas finlandesas são fortes apenas no interior?
Não. Embora muitas tenham origem local ou rural, cooperativas e mutualistas finlandesas também são muito fortes em grandes cidades. Helsinque, por exemplo, concentra forte presença do OP Pohjola, do S Group, da HOK-Elanto, do S-Bank e de serviços mutualistas.

Quais são os principais exemplos de cooperativas finlandesas?
Entre os principais exemplos estão OP Pohjola no sistema financeiro, S Group no consumo e varejo, HOK-Elanto na região de Helsinque, S-Bank como banco de propriedade cooperativa indireta, Valio no leite, Metsä Group no setor florestal e LocalTapiola no mutualismo de seguros.

Fontes consultadas
Pellervo Coop Center – Cooperation in Finland
Pellervo Coop Center – Central Organisation of Finnish Cooperatives
Statistics Finland – Population growth slowed down in 2025
Finance Finland – Annual financial services statistics
Finance Finland – Annual Financial Services Statistics 2024
OP Pohjola – Annual Report 2025
OP Pohjola – Cooperative banks
BankTrack – OP Financial Group profile
OP Uusimaa – Branches
POP Bank Group – Information for investors
S Group – 2025 operating result and member benefits
Finnish Grocery Trade Association – Grocery market shares 2025
S-Bank – Annual Report 2025
LocalTapiola – Financial statement presentation 2025
Valio – 2025 financial performance
Valio – Farmer owned
Metsä Group – Annual Review 2025
Metsä Group – Business structure

Fonte: Portal do Cooperativismo Financeiro.