
Daniel: o futuro do cooperativismo depende da sua capacidade de transformar conhecimento em participação efetiva
Por Daniel Oliveira - Consultor e Instrutor em Cooperativismo, com atuação em governança, gestão e aceleração de cooperativas
Investir em educação cooperativista tornou-se um consenso dentro do movimento cooperativista, sustentado pelo princípio formal da formação como base da participação (ICA, 1995), mas os resultados observados nas cooperativas não confirmam essa promessa. Mesmo com programas estruturados de capacitação, a participação qualificada dos cooperados continua baixa e concentrada. Isso indica que há uma ruptura entre o que se ensina e o que se pratica no espaço de governança. Portanto, a pergunta incômoda é:
O problema está na educação ou na forma como entendemos seus efeitos?
A lógica dominante no cooperativismo parte da premissa de que educar leva automaticamente à participação, apoiando-se na centralidade histórica da educação como pilar do modelo cooperativo (ICA, 1995). No entanto, a realidade organizacional mostra que essa relação não se sustenta de forma consistente, mesmo em cooperativas que investem significativamente em formação. Esse descompasso revela que a relação entre educação e governança é mais complexa do que a literatura costuma admitir. Assim, torna-se evidente a existência de uma lacuna analítica na compreensão desse processo.
Cooperativas com programas estruturados de formação continuam enfrentando: baixa participação em assembleias, decisões concentradas e pouca intervenção qualificada dos cooperados. Tais evidências indicam que a presença da educação não se traduz automaticamente em comportamento participativo. Ou seja: a educação existe, mas a governança não responde.
Esse cenário evidencia que o problema não está na falta de iniciativas educacionais, mas na ausência de um modelo que explique como essas iniciativas se transformam em comportamento participativo. Embora a literatura reconheça o papel ativo do cooperado na dinâmica organizacional, ainda carece de explicações sobre os mecanismos que conectam formação e ação (Amodeo, 1998). Essa ausência limita tanto a análise quanto a prática, pois impede intervenções mais eficazes. Consequentemente, a educação permanece tratada como solução, sem que seus efeitos sejam de fato compreendidos.
Para avançar nessa compreensão, é necessário decompor essa lacuna em três dimensões centrais que ajudam a explicar por que a educação, isoladamente, não produz participação efetiva: (1) o equívoco conceitual de tratar educação como sinônimo de aprendizagem; (2) a limitação de abordagens que reduzem a participação à disponibilidade de informação; e (3) a ausência de um modelo que reconheça o comportamento cooperativo como elo mediador entre formação e governança.
1. O equívoco central: confundir educação com aprendizagem
A principal fragilidade conceitual do campo está em tratar educação como sinônimo de aprendizagem, ignorando que são processos distintos. Enquanto a educação representa a oferta institucional de conteúdo, a aprendizagem envolve a internalização e a capacidade de aplicação desse conteúdo pelo cooperado. Amodeo (1998) já indica que a participação depende da capacidade de agir, o que pressupõe um nível mais profundo de apropriação do conhecimento. Dessa forma, quando essa distinção não é feita, a educação perde sua capacidade de gerar transformação real.
Essa confusão leva à implementação de programas que priorizam a transmissão de informação, mas não garantem a construção de competências para a ação. O cooperado passa a conhecer conceitos, mas não desenvolve capacidade de intervenção nos processos decisórios. Esse fenômeno gera uma participação formal, mas não qualificada, fragilizando a governança. Assim, a ineficácia da educação não está em sua existência, mas na forma como é concebida e aplicada.
2. Participação não nasce da informação, nasce da relação
A participação cooperativa não pode ser explicada apenas pela disponibilidade de informação, pois depende de fatores sociais mais complexos, como confiança e pertencimento. Putnam (2000) demonstra que o capital social, elemento central para o engajamento coletivo, se constrói por meio de relações e experiências compartilhadas. Isso implica que a informação, isoladamente, não é suficiente para gerar participação. Portanto, a educação que não promove interação tende a ser limitada em seus efeitos.
Quando os processos educativos não estão conectados à prática organizacional, o conhecimento produzido não se traduz em ação. A teoria da ação coletiva indica que a cooperação depende da internalização de regras e da compreensão compartilhada do sistema (Ostrom, 1990). O cooperado pode compreender normas e estruturas, mas não se sente parte ativa do processo decisório quando não vivencia esses mecanismos. Esse distanciamento reduz a disposição para participar e enfraquece a governança. Assim, a ausência de vínculos relacionais transforma a educação em um processo estéril do ponto de vista organizacional.
3. O elo ignorado: comportamento cooperativo
A governança cooperativa não é resultado direto da educação, mas do comportamento dos cooperados nos espaços de decisão. Esse comportamento, por sua vez, não emerge automaticamente da formação, sendo resultado de um processo mediado. Bialoskorski Neto (2002) aponta que a eficiência depende da qualidade da participação, mas não explicita os fatores que produzem essa qualidade. Isso evidencia a necessidade de compreender o comportamento como variável central.
Ao estruturar a relação entre educação e governança como um processo mediado (educação → aprendizagem → comportamento → governança) torna-se possível explicar por que a educação isolada não produz resultados. O impacto da educação depende da sua capacidade de gerar aprendizagem e, posteriormente, comportamento. Sem essa transformação, a governança permanece formal, mas não efetiva. Portanto, ignorar essa mediação compromete a compreensão do fenômeno cooperativo.
Diante dessa análise, torna-se evidente que o cooperativismo contemporâneo enfrenta um problema estrutural ao concentrar seus esforços na expansão da educação, sem considerar a qualidade de seus efeitos. Essa abordagem se apoia em uma lógica simplificada, que desconsidera a complexidade dos processos de aprendizagem e comportamento. Como resultado, configura-se uma governança que existe no plano formal, mas não se sustenta na prática, ampliando a incoerência entre princípio e operação e consolidando um risco estrutural para as cooperativas.
Essa situação gera uma contradição relevante: a cooperativa mantém seu discurso democrático, mas opera com baixa participação efetiva. A centralização das decisões passa a ocorrer não por intenção, mas pela ausência de engajamento qualificado, comprometendo a legitimidade da governança e enfraquecendo a identidade cooperativa. Diante disso, o desafio deixa de ser conceitual e passa a ser operacional, exigindo a construção de caminhos práticos capazes de transformar educação em comportamento e comportamento em participação efetiva.
Caminhos práticos e direcionamentos
Superar essa lacuna exige mais do que ampliar iniciativas educacionais, exige uma mudança de lógica. O foco deve ser deslocado da oferta de conteúdo para a construção intencional de comportamento cooperativo. Isso implica reconhecer que a aprendizagem não ocorre apenas em ambientes formais de capacitação, mas em contextos contínuos de prática, interação e tomada de decisão.
Nesse sentido, torna-se necessário ir além de metodologias participativas e avançar para o desenho de estruturas organizacionais que induzam comportamento. Isso inclui a criação de núcleos de base, instâncias intermediárias de participação, ciclos permanentes de interação e espaços onde o cooperado vivencie, na prática, os mecanismos de governança. A aprendizagem, nesse contexto, deixa de ser evento e passa a ser um processo incorporado à dinâmica organizacional, conectando educação, experiência e ação.
Além disso, é fundamental redefinir os critérios de sucesso dos programas educativos. Medir presença ou conteúdo transmitido é insuficiente. O foco deve recair sobre o comportamento: participação em decisões, qualidade das intervenções e nível de engajamento efetivo. Essa mudança permite alinhar educação e governança de forma mais consistente, deslocando o eixo da formação para a geração de resultados organizacionais.
Em última instância, a efetividade da gestão cooperativa passa a depender da capacidade de estruturar ambientes que desenvolvam comportamento e de mensurar esse desenvolvimento de forma sistemática. Sem isso, a educação continuará produzindo conhecimento, mas não transformação.
Conclusão
Diante desse cenário, torna-se evidente que o desafio do cooperativismo não está na ampliação das iniciativas educacionais, mas na sua capacidade de produzir efeitos concretos no comportamento dos cooperados.
A análise evidência que o maior equívoco do cooperativismo não é a ausência de educação, mas a crença de que ela, isoladamente, resolve o problema da governança. A literatura e a prática ainda operam sob uma lógica linear que ignora as mediações entre conhecimento e ação, limitando a capacidade de intervenção e perpetuando modelos pouco eficazes. Portanto, é necessário avançar para uma compreensão mais complexa do fenômeno.
Ao reconhecer que a governança depende da transformação da aprendizagem em comportamento, abre-se espaço para uma nova abordagem estratégica. Essa mudança desloca o foco do ensino para a ação, permitindo maior alinhamento entre princípio e prática e reforçando a necessidade de estruturas que sustentem esse processo.
Sem essa transformação, a educação continuará sendo simbólica. Assim, o futuro do cooperativismo depende da sua capacidade de transformar conhecimento em participação efetiva, não como princípio declarado, mas como prática organizacional sustentada.
Na sua cooperativa, a educação tem gerado comportamento participativo ou apenas ampliado o acesso à informação, sem impacto real na governança?
Fonte: UniversoCoop.