Diversidade nos conselhos revela maturidade da governança

15/05/2026 15:45

A diversidade nos conselhos revela maturidade da governança porque sinaliza organizações mais abertas ao diálogo, à renovação e à complexidade do ambiente atual

A diversidade nos conselhos revela maturidade da governança e tem se consolidado como um dos principais indicadores de evolução institucional nas organizações brasileiras. No campo empresarial, dados recentes do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) mostram avanços ainda lentos na participação feminina na alta administração. Já no cooperativismo, o tema aparece mais como diretriz de valores e princípios do que como indicador mensurado, o que abre espaço para um debate estratégico sobre profissionalização da governança.

Ao observar a presença das mulheres nos conselhos de administração, é possível diferenciar claramente iniciativas simbólicas de transformações estruturais nos modelos de gestão.

O retrato da diversidade nos conselhos das empresas brasileiras
A pesquisa “Análise da diversidade de gênero e raça de administradores e empregados das empresas de capital aberto” (IBGC, 2024) revela que a diversidade ainda é um desafio relevante no topo das organizações brasileiras.

Segundo o levantamento, apenas 15,8% dos cargos de administração — considerando conselhos de administração, conselhos fiscais e diretorias — são ocupados por mulheres. Embora 67% das empresas possuam ao menos uma mulher em seu conselho de administração, isso não significa diversidade efetiva: quando há participação feminina, elas ocupam, em média, 22,8% das cadeiras desses colegiados.

Os dados também mostram que o avanço tem ocorrido de forma gradual. Em 2021, as mulheres representavam 12,8% desses cargos; em 2022, 14,3%; e, em 2024, chegaram aos atuais 15,8%. O cenário evidencia que a presença feminina cresce, mas ainda distante de uma estrutura verdadeiramente equilibrada.

Presença simbólica ou diversidade estrutural?
A leitura dos dados do IBGC permite um ponto central para a análise da governança: ter ao menos uma mulher no conselho não equivale, necessariamente, à diversidade estrutural. Conselhos compostos majoritariamente por perfis homogêneos tendem a reproduzir visões semelhantes, o que limita o debate estratégico e a qualidade das decisões.

Para o IBGC, conselhos mais diversos estão associados a debates mais ricos, maior pluralidade de argumentos e decisões mais robustas, reforçando a importância de tratar a diversidade como um elemento permanente da governança, e não como uma ação pontual.

O gargalo racial amplia o desafio da governança
Além da desigualdade de gênero, a pesquisa do IBGC evidencia um gargalo ainda maior no recorte racial. 81,1% dos cargos de administração são ocupados por pessoas brancas, enquanto pessoas pretas, pardas, amarelas e indígenas, somadas, não chegam a 10% desses cargos.

Mais crítico ainda, pretos e indígenas não alcançam 1% de participação nos conselhos e diretorias analisados. O dado expõe uma distância significativa entre o discurso ESG e a composição real dos órgãos de decisão, reforçando a necessidade de métricas, transparência e políticas estruturadas.

O que o IBGC recomenda para avançar
Diante desse cenário, o IBGC tem sido enfático ao defender que o avanço da diversidade depende de metas claras, métricas objetivas e transparência. O Instituto aponta que a ausência desses instrumentos tende a manter o tema no campo retórico, sem impacto real na estrutura de poder das organizações.

Outro ponto central é o fortalecimento do pipeline de lideranças, com formação, visibilidade e regras claras de sucessão, evitando que a discussão sobre diversidade se restrinja apenas ao momento da eleição para o conselho.

E no cooperativismo? O papel da OCB
No cooperativismo brasileiro, especialmente no cooperativismo de crédito, a abordagem é distinta. A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) não dispõe, até o momento, de pesquisas nacionais consolidadas com indicadores quantitativos padronizados sobre diversidade de gênero ou raça especificamente nos conselhos de administração das cooperativas.

Esse dado, por si só, já é relevante e ajuda a contextualizar a diferença entre o mercado de capitais e o sistema cooperativista.

Diversidade como princípio da governança democrática
A OCB trata a diversidade prioritariamente sob a ótica da governança democrática, da representatividade dos cooperados e da renovação das lideranças. No Manual de Boas Práticas de Governança Cooperativista (2025), a entidade destaca que estruturas de governança saudáveis devem:
Estimular a pluralidade de perfis nos órgãos de administração;
Promover formação contínua, sucessão e renovação dos conselhos;
Evitar conselhos excessivamente homogêneos ou perpetuados no tempo, o que fragiliza a governança.
Nesse contexto, a diversidade aparece como valor e diretriz, alinhada aos princípios cooperativistas de controle democrático e participação dos membros.

Um desafio de maturidade institucional
A comparação entre os dados do IBGC e a abordagem da OCB revela um ponto central para reflexão. Enquanto nas empresas a diversidade nos conselhos passou a ser monitorada por exigências regulatórias e métricas claras, no cooperativismo o tema ainda é tratado predominantemente como princípio, e não como indicador mensurável.

Para o cooperativismo de crédito, essa diferença representa uma oportunidade. Ao alinhar os princípios cooperativistas com práticas mais estruturadas de governança, o setor pode avançar na profissionalização dos conselhos, ampliar a diversidade e fortalecer sua sustentabilidade institucional.

Diversidade como caminho para a perenidade
A diversidade nos conselhos revela maturidade da governança porque sinaliza organizações mais abertas ao diálogo, à renovação e à complexidade do ambiente atual. No cooperativismo, onde a legitimidade das decisões está diretamente ligada à base social, avançar nesse tema significa fortalecer a democracia interna, preparar novas lideranças e garantir a perenidade do modelo.

Mais do que uma pauta social, a diversidade se consolida como uma agenda estratégica de governança.

Fonte: Portal do Cooperativismo Financeiro.


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