null A evolução e os novos desafios do Cooperativismo Financeiro

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Ao final desta década, compete destacar o constante crescimento e grandes conquistas para o Cooperativismo Financeiro.

Em expansão, o Cooperativismo Financeiro vem demonstrando sua força, marcando território, tanto no interior onde tudo começou quanto atuando já de forma marcante nos grandes centros.

A tal regionalização, palavra usualmente utilizada pelos Cooperativistas, não é à toa, possibilita e isso é fato, acessibilidade financeira à sociedade, principalmente às regiões com menor poder aquisitivo, agregando, agradando e “conquistando” um dos mais importantes aliados, a grande parte da população brasileira.

O marketshare não é preocupante, e sim ao analisarmos a evolução acentuada dos números, notamos a significativa “busca” por algo novo, alternativas de créditos melhores e mais justos, bem como alinhado ao relacionamento “olho no olho” e consultivo, diferencial único e que não sairá tão cedo da estratégica dos negócios.

Segundo o último Relatório de Estabilidade Financeira disponibilizado pelo Banco Central do Brasil, nos últimos 05 (cinco) anos, o estoque de crédito das Cooperativas Financeiras, evolui em média 26% a.a. o dobro dos bancos tradicionais, o que já representa cerca de 8,7% do SFN (Sistema Financeiro Nacional), quando relacionados apenas ao nicho de mercado que atuam.

Contribuindo com essa crescente, estão os bancos tradicionais, de números e lucros exorbitantes, porém de atendimento escasso, para não dizer “desumanos”, alinhado a dependência de grande parte da população por créditos quase que inacessíveis, taxas acima da curva, produtos “casados” e que ao final das contas encarece e muito o crédito do sistema financeiro brasileiro.

Fatores como esses contribuem para colocar o Brasil em 2º lugar como o país de maior spread bancário (diferença entre a remuneração que o banco paga ao aplicador para captar um recurso e o quanto esse banco cobra para emprestar o mesmo dinheiro) do mundo.

Com a população brasileira se tornando uma grande aliada das Cooperativas, os bancos que ao contribuir com o altíssimo spread, alinhado a prioridade e necessidade (compreensível) da redução de seus custos operacionais, bem como o direcionamento pelo fechamento de agências, torna a relação cliente x banco cada vez mais desgastante e consequentemente torna também um grande aliado das Cooperativas.

Ao abordar essa questão, uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Locomotiva, revelou que, a população brasileira bancarizada está em torno de 71% (setenta e um por cento) das pessoas acima de 16 anos, ou seja, grande maioria dela tem acesso ao crédito.

Agora imagine você, cliente de longa data de um banco tradicional, que sempre fez questão de “confidenciar”, compartilhando sonhos e conquistas junto ao gerente de sua conta, ato normalmente realizado no dia a dia de grande parte da população brasileira.

Ao ver a transformação digital priorizada e migrada tempestivamente, sem levar em conta os protagonistas (clientes), ou seja, aqueles que alavancaram e fizeram do negócio um gerador exorbitante de lucro, daí a relação cliente x banco se desgasta, principalmente pelo fechamento de agências e migração cada vez mais do atendimento para plataformas digitais.

A confiança que já não é a mesma, ficou comprometida e o relacionamento, prejudicado, essencial nos dias de hoje, onde passamos por transformações tecnológicas, deixando cada vez mais de lado a relação pessoal de “olho no olho”.

Colaborando ainda mais com a situação, em grandes momentos de crises, aqueles que deveriam justamente apoiar seus clientes, proporcionando mais acessibilidade ao crédito, confiança e colaborando assim com o giro da economia, os bancos “batem” e fecham as portas, lacuna esta que abre excelentes oportunidades às Cooperativas Financeiras.

Um cenário como este, proporciona alternativas de abrir os olhos da sociedade, bancarizada ou não, fazendo enxergar a justiça financeira e acessibilidade ao crédito.

Aos poucos a filosofia Cooperativista está ganhando força, consolidando e demostrando à sociedade que fazer parte de uma instituição financeira onde todos ganham e ainda desenvolve a região onde atua, é gratificante e benéfico a todos.

O impacto dessa relação na economia foi demonstrada em pesquisa recente encomendada à Fipe pelo Sicredi e disponibilizada por sua assessoria, chegando a conclusão que o cooperativismo incrementa o PIB em média de 5,6% nas localidades onde estão instaladas.

Números como esses refletem a realidade do setor e traz à tona a importância da evolução da participação do Cooperativismo no sistema financeiro nacional.

A estratégia dos bancos visando menor custos e menos proximidade pessoal, possibilita o aumento da participação das Cooperativas, ganhando uma fatia importante e tornando cada vez mais como a principal instituição financeira de grande parte da população.

Aí está um modelo de negócios que já incomoda os concorrentes e gera grandes retornos ao país, colaborando para que as demais instituições facilitem o acesso ao crédito, com taxas acessíveis, e alavancando assim o giro da economia.

Um cenário até então promissor, tornou-se realidade, conquistando a sociedade pela forma de atuar, seus propósitos e valores, quebrando paradigmas da complexidade em fazer parte de uma instituição financeira, onde neste caso o cliente é o dono, que deve e tem o poder de colaborar nas decisões.

Ao analisar esse cenário, nota-se um próspero horizonte, tudo a favor das Cooperativas Financeiras, bastando apenas aprimorar a estratégia, expandir a área de atuação, alavancar seu marketshare e se consolidar definitivamente dentre as grandes instituições financeiras do país.

Pois bem, a concorrência e o avanço tecnológico exigem cada vez mais das empresas, independente de segmento, dinamismo, inovação e que se reinventem em seus processos, com objetivos de proporcionar mais qualidade, celeridade, praticidade e consequentemente, diminuição de custo ao consumidor final.

E aqui estamos nós, necessariamente nos desafiando, fazendo frente há um mercado que vem crescendo muito nos últimos três anos, e que veio para ficar (isso é bom), transformando o setor financeiro, bem como, podemos dizer que vem demonstrando ser um grande aliado das Cooperativas e sociedade, como uma alternativa que colabora e muito pela redução das taxas.

Enfim, estou me referindo das fintechs de crédito.

Segundo definição do Banco Central do Brasil, as fintechs de crédito (empresas que fazem uso intensivo de tecnologia e ofertam produtos por meio de plataformas eletrônicas), já estão regulamentadas e desde 2018 operam com crédito direto aos clientes.

Podemos citar como exemplo de evolução dessa transformação financeira, a pioneira no setor, a startup Brasileira Nubank, com operação desde 2013, que atualmente já ultrapassa a casa dos 20 milhões de clientes, quase o dobro dos associados em cooperativas financeiras no país, em pouquíssimo espaço de tempo.

Uma comparação que merece ser refletida, vejamos:

Ao falarmos dos desbancarizados, estamos falando em torno de 29 % (45 milhões de pessoas), aquela fatia da população brasileira acima de 16 anos que por algum motivo ou outro, não tem conta em instituição financeira, seja por dificuldade no acesso ao crédito, ou até mesmo pelo conservadorismo.

Assim, temos uma “fatia” enorme à ser conquistada, correto?

Oportunidades como essas, alinhadas a burocracia e o custo do crédito facilita a evolução “unicórnio” das fintecks, cuja estrutura enxuta, colabora para um custo operacional extremamente baixo, possibilitando taxas reduzidas, além de tarifas de serviços quase zeradas que até então impossível de não cobrá-las em algumas instituições, exceto em grande parte das Cooperativas Financeiras.

O “boom” das fintecks e o “brilho nos olhos” de grande parte da população brasileira pelo prático e inovador modelo de negócio financeiro, faz nos acostumarmos pelo novo, porém precauções e cautela é necessário, considerando que o “novo” e inovador modelo, pode se transformar em previsível e “tradicional”, pensemos…

Alinhado a concorrência e principalmente pela nova geração em busca de tecnologia, acessibilidade, custo baixo e dinamismo nas relações, as Cooperativistas Financeiras precisam rever suas estratégias, priorizando o fortalecimento e conhecimento cada vez mais da marca, agarrando as oportunidades deixadas pelos bancos e possibilitar o poder de escolha, unindo a transformação digital ao atendimento pessoal.

Essa união possibilita a praticidade e atendimento tão conceituado e necessário “olho no olho”, ou pela maneira prática, rápida e moderna de resolver as coisas, independente de “quem” está por “trás”, ou seja, tecnologia na relação para aquele que não quer consumir tempo com relação.

Ao pensar que um modelo promissor, com evolução na casa dos dois dígitos nos últimos anos, precisa ser reinventado, não creio!

Penso que as Cooperativas Financeiras precisam proporcionar mais conhecimento a sociedade, do seu modelo de negócio, da filosofia de trabalho e realmente, deixar transparecer que o custo x benefícios gerados àqueles que fazem parte, é gigantesco ao ser comparado com os bancos e os novos players do mercado financeiro.

Precisamos também refletir sobre a importância pela intercooperação sistêmica, onde as Cooperativas ao agirem individualmente consomem muito as energias, ao pensar em soluções, inovações tecnológicas sem união, gastando muito dinheiro, descentralizando ao invés de centralizar.

Estamos “engatinhando” ainda nesse critério quanto a redução dos custos.

Devemos unir nossas tecnologias, estudos de inovação e tendências, enfim, aproveitar a intercooperação para ganhar mercado em escala, reduzindo custos que muitas vezes são multiplicados para a mesma finalidade e proporcionar cada vez mais melhorias aos nossos associados.

A intercooperação não quer dizer união dos sistemas, métodos, estratégias de mercado, administração e sim, possibilidade de unir esforços com compartilhamentos e centralização de ações, com objetivo único pelo avanço conjunto do Cooperativismo com justiça financeira.

Estamos sendo “provocados” e incentivados pelo Banco Central, o que faz nos mexermos, uma vez que necessariamente tanto pela regulação diferenciada, quanto pelos benefícios e incentivos constitucionais, devemos demonstrar o que somos e porque somos diferentes junto a sociedade.

Em recente visita ao modelo Cooperativista Europeu, em especial a Itália, pude perceber a importância do sistema na vida e dia a dia das pessoas, sendo que lá as Cooperativas também colaboram nas “lacunas” que o órgão público deixa a desejar, entrando definitivamente e fazendo muita diferença em suas vidas, demonstrando a clareza e a consciência que todos tem quanto a importância do segmento e modelo cooperativista para o país.

Voltando ao nosso modelo, penso no fortalecimento dos sistemas em conjunto, conscientizando cada vez mais a sociedade sobre a importância das Cooperativas no crescimento sustentável e contribuindo assim pela perenidade do Cooperativismo Financeiro.

E para encerrar, trago um exemplo recente, clássico do Cooperativismo e que demonstra nossa força, nossa maneira de ser, nosso principal diferencial, o relacionamento.

Recentemente, um associado da nossa matriz, comerciante de longa data, chegou à sala da Diretoria Executiva e como associado (dono do negócio), as portas sempre estão abertas, aliás, sentou-se cumprimentando todos, de imediato solicitamos um cafezinho e uma água.

Tão logo demandou um pedido, “Senhores Diretores, subi a sala de vocês para fazer um pedido! Gostaria de ter o privilégio de contar com o crédito imobiliário da Cooperativa. Tenho uma filha e quero muito dar um suporte à ela. Não tenho muito dinheiro para entrada, mas gostaria imensamente do apoio de vocês para realizar esse sonho de dar uma casa para minha filha”.

Sem entrar em detalhes, porém muito humilde completou, “Casa simples, porém será muito importante para minha família essa conquista”.

A consequência da concessão do crédito ou não para o associado, não é objeto dessa análise, o que estou tentando passar à todos, é a proximidade, valorização, sentimento de apoio, parceria, conforto e acessibilidade financeira aos associados.

Sentimento este que agora mais do que nunca, os bancos tradicionais deixarão de ter e as fintechs jamais terão.

Por Rodolfo Lombardi Archangelo, diretor Administrativo Financeiro e Gerenciamento de Risco - Sicoob Coocrelivre

 

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