“Cuidar de quem cuida”: Dia C volta o olhar para cuidadores em Pitangui
Dia C foi voltado exclusivamente para Cuidar de Quem Cuida. Nas fotos, alguns registros dos atendimentos.
“Geralmente, a gente só participa de eventos voltados para o público que a gente cuida. Hoje não. Hoje é um dia voltado para mim.”
O relato de Alexandra Daniela Lacerda Barcelos, mãe de dois filhos autistas, traduz a proposta que marcou o Dia de Cooperar — Dia C — realizado no sábado, 29 de agosto, no Picadeiro Festas, em Pitangui.
Com o tema “Cuidar de quem cuida”, a iniciativa reuniu cerca de 70 cuidadores para uma programação dedicada a pessoas que passam boa parte da rotina atendendo às necessidades do outro e que, muitas vezes, acabam deixando o próprio cuidado em segundo plano.
Durante o encontro, os participantes tiveram acesso a atividades de maquiagem, corte de cabelo, massagem, dicas de nutrição, bem-estar, orientações jurídicas, aferição da pressão arterial e teste de glicose.
Por algumas horas, a lógica cotidiana foi invertida: quem está acostumado a oferecer atenção e cuidado teve a oportunidade de recebê-los.
Para Alexandra, a experiência representou justamente essa mudança de perspectiva.
“Hoje eu estou me sentindo superespecial. Passei por vários estandes, fiz maquiagem, massagem. É um dia mesmo de cuidado para a gente”, contou.
Ao falar sobre a importância da iniciativa, ela resumiu uma preocupação comum a muitas pessoas que vivem uma rotina dedicada ao cuidado de familiares.
“A gente precisa cuidar da gente também, senão quem é que vai cuidar de quem a gente cuida?”
Um olhar diferenciado
A escolha do tema desta edição surgiu da intenção de ampliar o olhar sobre os públicos alcançados pelas ações realizadas na comunidade.
Responsável pela organização do evento e pela idealização do “Cuidar de quem cuida”, Flávia Leão de Barcellos, agente de Desenvolvimento Cooperativista do Sicoob Credpit, explica que a proposta nasceu da percepção de que algumas necessidades nem sempre recebem a mesma visibilidade.
“A Cooperativa sempre apoiou diversas instituições da nossa comunidade, e eu senti que era o momento de ampliar esse olhar e perceber também outros grupos e necessidades que, muitas vezes, não têm tanta visibilidade”, afirma.
A partir dessa reflexão, a programação foi pensada especialmente para mães atípicas, familiares e outras pessoas que dedicam parte significativa da vida ao cuidado de alguém.
“Eu queria que o Dia C deste ano proporcionasse uma verdadeira experiência de acolhimento, em que essas pessoas tivessem um espaço para serem vistas, ouvidas e cuidadas, mas também para dar visibilidade às suas histórias e necessidades”, explica Flávia.
Para ela, identificar essas demandas também faz parte da relação que o cooperativismo busca estabelecer com as comunidades onde está presente.
“Acredito que o cooperativismo também tem esse papel: ampliar o olhar, ouvir a comunidade e perceber necessidades que nem sempre estão tão evidentes. E foi isso que buscamos fazer neste Dia C: cuidar de quem passa tanto tempo cuidando de alguém.”
Parceria e mobilização
A ação foi realizada pelo Sicoob Credpit e Sicoob Credicoop e contou com aproximadamente 20 voluntários, entre colaboradores das duas cooperativas, além da participação de profissionais, empresas e instituições que contribuíram para a realização das atividades.
Para Antônio José de Freitas (Procópio), presidente do Conselho de Administração do Sicoob Credpit, a mobilização representa uma forma de direcionar a atuação cooperativista para necessidades percebidas na própria comunidade.
“Com uma grande alegria, em parceria com o Sicoob Credicoop, estamos hoje cuidando dos nossos cuidadores, das pessoas que trabalham cuidando de pessoas aqui em Pitangui. Para nós, é uma satisfação trabalhar em prol da nossa comunidade no Dia de Cooperar”, afirmou.
O diretor Administrativo do Sicoob Credicoop, Carlos Gomes, destacou que a decisão de dedicar a programação aos cuidadores partiu justamente de uma reflexão sobre quem normalmente está do outro lado dessa relação.
“Pensamos: por que, desta vez, não dar um pouco de carinho para essas pessoas que cuidam? Chegamos a esse consenso e criamos este evento. A receptividade das pessoas foi bacana e fiquei muito feliz com tudo isso”, disse.
Quando o cuidador fica em segundo plano
Além das atividades de bem-estar, a programação colocou em discussão uma questão que ultrapassa o próprio evento: a necessidade de atenção à saúde física e emocional das pessoas que assumem responsabilidades contínuas de cuidado.
A médica endocrinologista Cristina Silva Lobato chamou atenção para o fato de que o olhar da sociedade costuma estar direcionado a quem recebe assistência, enquanto as necessidades do cuidador podem passar despercebidas.
“Geralmente, a gente olha para quem é cuidado: a mãe que tem um filho autista, uma pessoa com síndrome de Down, um idoso, e não lembra da pessoa que cuida. Hoje estamos aqui para cuidar dessas pessoas que são tão importantes para a nossa sociedade”, afirmou.
Para Cristina, olhar para a própria saúde não beneficia apenas o cuidador, mas também interfere na continuidade do cuidado prestado a quem depende dele.
“Que eles comecem a olhar mais para eles mesmos, cuidar da saúde física e mental, para que estejam bem e consigam cuidar melhor ainda dessas outras pessoas que dependem deles.”
A psicóloga Marli Rodrigues também destacou a tendência de quem cuida colocar as próprias necessidades em segundo plano.
“Quem cuida sempre prioriza o outro. Em que momento você tira um tempo para você?”, questionou.
Segundo Rodrigues, criar espaços destinados a esse público contribui para estimular o autocuidado. “Foi excelente. Um tema fantástico em que podemos acolher esses profissionais com palestras, rodas de conversa e oficinas de cuidado, porque é importante você tirar um tempo para você.”
O educador físico Caio César ressaltou outro aspecto: a pouca visibilidade que muitas dessas pessoas recebem no dia a dia.
“Acho muito importante a gente cuidar também dessas pessoas que cuidam de outras pessoas. São pessoas que, às vezes, a gente não vê. Elas devem olhar para si mesmas e se cuidar”, frisou César.
A professora Valdirene Aparecida Francisca acrescentou que familiares, amigos e pessoas próximas também precisam estar atentos aos sinais apresentados por quem vive uma rotina intensa de cuidado.
“A pessoa pode estar gritando, pode estar dando sinais e outras pessoas não percebem que ela precisa de atenção também. Então, vamos cuidar de quem cuida de alguém”.
Apoiadores
Para colocar a proposta em prática, o Dia C mobilizou uma rede de profissionais, empresas, entidades e poder público. Os apoiadores contribuíram de diferentes formas, com serviços, estrutura e brindes destinados aos participantes.
A participação de todos permitiu reunir, em um mesmo espaço, momentos de cuidado pessoal e orientações relacionadas à saúde, nutrição e direitos, além de proporcionar aos cuidadores uma pausa na rotina.
Mais do que concentrar atividades em uma única data, a edição deste ano colocou em evidência uma questão que permanece depois do encerramento da programação: quem dedica grande parte da vida ao cuidado do outro também precisa ser visto, ouvido e cuidado.
Isso fica ainda mais claro nas palavras de Alexandra, que naquele sábado pôde ocupar um lugar diferente daquele que faz parte de sua rotina: “Hoje é um dia voltado para mim.”
A realização do Dia C contou com o apoio de ACE Pitangui/CDL Pitangui, , Associação para o Desenvolvimento Econômico e Social de Pitangui (ADESP), Bianca Rodrigues – Líder de Negócios Natura | Avon, Casa da Amizade Pitangui, Defensoria Pública, Drogaria Americana, Entrefarma, Estefane Cézar Nutricionista, Jade, Laboratório Miguel Sabino, Let’s Gourmet Confeitaria, Mil Detalhes, Odonto Company – Unidade de Pitangui, Peixaria Pitangui, Picadeiro Festas, Reboca Makeup, Recovery, Rede Inova Drogarias, Salão Carol Lopes, Salsaretti, Secretaria Municipal de Educação, Secretaria Municipal de Saúde e Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.