Juliano Wieczorek de Andrade é dono de uma loja de produtos naturais, no Centro de Florianópolis
Por vocação ou necessidade, o número de pessoas donas do próprio negócio disparou. Mas, infelizmente, metade destas novas empresas não terá vida longa. Em torno de 25% devem fechar as portas antes de completar dois anos, apontam estudos do Sebrae. O motivo? Em parte, por terem que quitar dívidas que não são delas. Mesmo o MEI (Microempreendedor Individual) deve separar as receitas e despesas da empresa das contas que ele, enquanto pessoa física, tem que pagar. Essa confusão nos números acaba sacrificando o caixa da empresa em benefício do dono. E, muitas vezes, quando o empreendedor percebe o quanto isso é prejudicial, já é tarde demais. Os micro e pequenos negócios representam praticamente 90% dos empreendimentos do país. A Grande Florianópolis ganhou 40 mil MEIs de 2018 para cá. Hoje são 98.517 microempreendedores cadastrados nos 16 municípios da região. Muitos deles perderam o emprego na pandemia e empreender foi a única opção. A maioria tem boa qualificação profissional, mas pouco conhecimento em gestão. Estudos revelam que, de cada 10 empresas, quatro fecham as portas por falta de planejamento financeiro. E a confusão com os gastos é um dos principais motivos, destaca o supervisor do Instituto Sicoob, Juliano Fernandes. O gerente regional do Sebrae na Grande Florianópolis, Wanderley Andrade, acentua que o primeiro passo para quem quer empreender é fazer uma consultoria. Tem muita gente que confunde CPF e CNPJ e isso coloca em xeque a saúde financeira da empresa, explicou. De acordo com ele, antes de alugar uma sala e comprar equipamentos, é preciso estudar o tamanho da demanda e da oferta no segmento em que pretende atuar. Tem que aprender a planejar, fazer um levantamento de quando deve produzir ou vender para que o novo negócio seja sustentável. O Sebrae, por exemplo, oferece essas orientações de graça. Mas ainda tem quem aposte no improviso, confiante de que é capaz de driblar qualquer dificuldade o que nem sempre acontece. Erro comum Tem empreendedor que está dentro da empresa, aí chega uma conta de casa luz, água, ou o colégio do filho, e ele já coloca no caixa da empresa. Ele paga aquela conta como se fosse uma despesa da empresa. Isso vai fazer falta logo à frente, comentou Wanderley Andrade. A orientação é definir um valor fixo de retirada mensal, o que os contadores chamam de pró-labore. Isso nada mais é do que a remuneração, uma espécie de salário, ao dono do negócio pelo tempo e pelo esforço dedicados à empresa. A sugestão é verificar quanto é o salário médio que os profissionais que fazem a mesma atividade recebem. Não é porque a empresa é sua que o seu salário vai ser o dobro ou triplo do mercado. Ele tem que saber se posicionar com o salário dele dentro do que a empresa pode pagar pra ele,ensina Wanderley. O saláriodo dono O supervisor do Instituto Sicoob, Juliano Fernandes, usa como exemplo um microempreendedor, dono de um salão de beleza. Ele destaca que o salário médio de um cabeleireiro hoje é de R$ 2,4 mil na região da Capital. O dono do salão deve começar com esse parâmetro. Ele vai tirar esse valor mensalmente. O restante que sobra, o lucro, ele deve reinvestir na própria empresa, usar para capital de giro. E também precisa fazer um orçamento, acompanhar o fluxo de caixa. Você tem que saber de todas as receitas e o que está saindo: as despesas com água, luz, internet, aluguel, tudo. Despesas fixas e variáveis. Tem que ter esse orçamento claro, porque senão ele não sabe pra onde está indo o dinheiro , afirmou Juliano. Com o passar do tempo, a receita aumentando, o valor do pró-labore poderá ser revisto. O que se vê na prática, comenta Juliano, é que muita gente limpa o caixa da empresa para fazer a reforma da casa ou comprar um carro novo, no lugar de usar esta verba para expandir o negócio, comprar um equipamento, investir na divulgação da marca. E aí, sem nenhuma reserva, basta um pequeno imprevisto e a empresa se vê sem dinheiro. Filho de comerciantes, Juliano Wieczorek de Andrade é dono de uma loja de produtos naturais, no Centro de Florianópolis. Ele montou a loja em sociedade com a esposa. Foram dois anos de planejamento até a realização deste sonho. E, assim que abriram as portas, começaram as restrições impostas pela pandemia. Farmacêutico por profissão, ele sempre desejou empreender e correu atrás do conhecimento. Conta que fez vários cursos de gestão para compreender melhor como administrar com eficiência. E o planejamento fez toda a diferença. Se não tivesse a reserva para bancar os custos dos primeiros meses, dificilmente a loja ainda estaria aberta. E o farmacêutico também segue à risca a orientação de manter as contas do CPF bem longe do caixa da loja. Estudar os números, baixar custos Quem mantém o CNPJ afastado do CPF tem facilidade em dizer se a empresa está dando lucro, qual o valor das sobras e também dos custos de manutenção. E ter isso à mão permite reavaliar suas escolhas e promover mudanças para tornar sua gestão mais eficiente. Quanto você gasta com produtos de limpeza? E com juros? E com as tarifas do banco? O empreendedor tem que pesquisar se não há um outro fornecedor que cobre menos pelo mesmo produto ou serviço. E isso vale para a sua instituição financeira também. Ele tem que ir pra onde a tarifa é mais baixa. Uma tarifa de maquininha, por exemplo. Ele tem que fazer essa comparação, explica Juliano Fernandes. Rever custos também envolve a renegociação de dívidas. A pandemia gerou uma quebra brusca na demanda. Muitas empresas viram o faturamento despencar de um mês para o outro e não conseguiram honrar seus compromissos financeiros. Fugir dos credores, definitivamente, não é o caminho. Juliano Fernandes sugere uma conversa franca e honesta. Tente baixar o valor do aluguel. Se está devendo para um fornecedor, fale de suas dificuldades. Peça um prazo maior para quitar a dívida, sugere. Se necessitar de um empréstimo para manter a empresa funcionando, pesquise. Não assine contrato com o primeiro que aparecer. Juliano destaca que há várias linhas de crédito disponíveis no mercado, e com juros cada vez menores. Os MEIs normalmente já vão direto no cartão de crédito ou cheque especial. E essas são as piores linhas para dar um gás no seu negócio. Vale à pena pesquisar, aconselhou. Pesquisar. Calcular. E, se necessário, mudar de instituição financeira. Esta também é a orientação de Roberto Tavares de Albuquerque, coordenador de projetos do Sebrae/SC. De acordo com ele, hoje há linhas de crédito subsidiadas pelo governo para auxiliar a recuperação do caixa das empresas com juros de 0,75% ao mês. Para se ter uma ideia, o crédito pessoal tem taxa média de 3,5% e o cheque especial de 7% ao mês. Ele explica que tudo depende da sua capacidade de pagamento e do relacionamento que a sua empresa tem com a instituição financeira. Quanto maior for esse relacionamento, maiores as vantagens. Se for abrir uma conta hoje e precisar de crédito, dificilmente terá os mesmos benefícios de alguém que trabalha com aquela instituição financeira há cinco ou 10 anos. Se você honra seus compromissos, se tem todo o controle financeiro da empresa em dia, isso tudo se reverte em menores custos logo à frente. O crédito é como se fosse uma relação de confiança. O banco ou cooperativa tem que ter algumas condições que assegurem que esse recurso do empréstimo vai voltar para a instituição para que ela continue cumprindo a sua missão, que é emprestar,pontua Roberto. Para quem anda meio desmotivado, mais uma vez eles, os números, comprovam que a reação econômica já começou. Os indicadores catarinenses estão melhorando a cada mês. E o coordenador de projetos do Sebrae também reforça que este pode ser um excelente momento de reposicionar o seu modelo de negócio. Há várias oportunidades em meio à crise. Muitas empresas que não vendiam de forma remota, pela internet, começam a vender. Aproveite para verificar se não há outros nichos de mercado que você possa explorar. A gente acredita que agora, com menos restrição na pandemia, com mais possibilidades de continuar os negócios em operação, a demanda por serviços e produtos tende a aumentar, concluiu Roberto Tavares de Albuquerque.