Releases Releases

Voltar

Os desafios e os avanços do cooperativismo financeiro no Brasil

Ser líder do sistema cooperativista de crédito no Brasil é um desafio diário. Não porque o assunto seja árduo ou difícil. Muito pelo contrário. O desafio se dá porque vivenciar o ambiente cooperativo diariamente me dá provas do potencial transformador que temos nas mãos, e é preciso controlar a vontade de fazer com que mais pessoas conheçam e usufruam dos benefícios de se tornar um cooperado.

Apesar do movimento cooperativista ser secular – o início foi em 1844 - e já estar bem estabelecido em países europeus, nos Estados Unidos, Canadá, Holanda, França e Japão, no Brasil ainda somos um movimento recente. Por aqui, a primeira cooperativa de crédito foi fundada em 1902. Mas por muitos anos fomos a opção de inclusão financeira apenas para grupos de pessoas com interesses comuns: funcionários públicos, empregados de uma mesma empresa, profissionais de uma categoria ou produtores rurais.

Por quase 30 anos, por restrições impostas pelos órgãos reguladores, só pessoas com algum vínculo em comum podiam participar de cooperativas financeiras. Somente em 2003, a resolução 3.106 voltou a permitir o funcionamento este tipo de cooperativa, conhecidas como livre admissão, em cidades com mais de 100 mil habitantes. Ou seja, desde 1964, quando a Lei nº 4.595, deixou de aceitar a criação de novas cooperativas que atendessem qualquer cidadão, nossa atuação era restrita a municípios pequenos. Em 2018 completamos apenas 15 anos da autorização do Banco Central! Esta mudança amplia muito nosso campo de atuação.

Outra alteração recente foi o pleito atendido em 2017 de as cooperativas poderem trabalhar com recursos de prefeituras. A operação foi viabilizada pela lei complementar 161/2018, que entrou em vigor no dia 5 de janeiro deste ano.

Sabemos que ainda temos no Brasil um longo caminho a percorrer para fazer com que o cooperativismo financeiro se torne uma opção natural na vida das pessoas, principalmente nos grandes centros urbanos. É um desafio que só conseguimos driblar com muita persistência, paciência e mantendo o foco no trabalho.

Segundo dados do Banco Central, entre as pessoas jurídicas, a participação das cooperativas no Brasil passou de menos de 1% em 2005 para mais de 8% em 2017. No Sicoob, já passamos de 642 mil cooperados só no segmento Pessoa jurídica! No total, considerando Pessoa Física e Jurídica, já somos mais de 4 milhões de cooperados. Este aumento foi especialmente grande na região Sul, onde saímos de 2,1% em 2005 para 16,7% em 2017. Na região Centro-Oeste, de 1,2% alcançamos 10,4%.

Crescemos nos últimos anos, mas ainda há muito espaço para avançar. Na França, 61% dos ativos estão nas cooperativas. No Brasil, chegamos a 8%, um grande salto, considerando que tínhamos 0,3% em 1994.

Enfrentamos barreiras de aceitação e até de entendimento do modelo cooperativista por parte da sociedade. Precisamos reverter alguns estigmas e provar que temos capacitação e oferecemos segurança tanto quanto outra instituição financeira. E temos que batalhar para ganhar mais aberturas regulatórias por parte do Banco Central.

Para capacitar nossos funcionários, criamos uma universidade e certificamos nossos dirigentes. Já temos mais de 400 mil alunos em três anos de trabalho da Universidade Sicoob.

Para ampliar a divulgação dos benefícios do sistema cooperativista estamos atuando fortemente com o Instituto Sicoob, levando ações de educação financeira para mais parcelas da população para assim apresentar o modelo principalmente para as camadas C e D. Assim, queremos divulgar nossos resultamos de maneira prática e mostrar o quanto as cooperativas são boas.

Já em relação aos marcos regulatórios, nos últimos 10 anos avançamos bastante e o Banco Central tem dado aberturas responsáveis. Nosso portfólio de produtos hoje é completo: financiamento, seguro, previdência, cartões, sistema de pagamento, empréstimos e muito mais e estamos muito mais avançados do que muitos países da América Latina.

Hoje, precisamos popularizar as vantagens e aumentar nossa presença nas capitais e nos grandes centros urbanos brasileiros. Porque no meio rural e nas cidades menores temos uma forte presença. Em 204 cidades do Brasil, o Sicoob a única opção financeira para a população.

Ganhar mais capilaridade, atendendo os grandes centros, depende ainda de aumentar o conhecimento da população sobre os benefícios do Sistema Cooperativista Financeiro.

Nosso caminho de crescimento é trilhado passo a passo, com barreiras sendo derrubadas paulatinamente. O desafio de crescer de forma sustentável ainda é grande, mas nossos dados, um sistema ancorado em princípios sólidos, o fato de termos um modelo financeiro que não visa o lucro e de pensar nas pessoas antes das instituições reforça nossa convicção e só nos motiva a continuar acreditando que o cooperativismo é a via mais certa para criar uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Henrique Castilhano Vilares

Presidente do Sicoob Confederação